
Um dia, o pequeno gato branco viu um leão. Ele se encantou com sua beleza e não mais o esqueceu. O leão, muito ocupado, não percebeu o gato, apesar de trocar algumas palavras com ele. O gato se foi. Sabia que se voltasse ao mesmo lugar, num determinado dia e horário, tornaria a ver o leão. Mas, sabe-se lá porque, ele não voltou e não mais o viu. De certa forma, o esqueceu.
Muito tempo depois, o gato corria pela estrada Vida e trombou com o leão, em um lugar diferente, numa situação diferente. Dessa vez, o leão não pode deixar de notar o pequeno gato branco que, encantado com sua grandiosidade, olhou dentro dos seus grandes olhos profundos e brilhantes. E o leão sorriu. Para aquele gato pequenino ali parado, era como se um sol gigante tivesse nascido diante dos seus olhos, irradiando uma energia de pura felicidade. Essa energia o preencheu. Seus olhos mudaram de cor e ele passou a enxergar um novo mundo. O leão passou a treinar gato branco. O ensinou a usar seus novos olhos. O gato passou a perceber pequenas coisas que nunca havia notado. E aprendeu a enxergar a beleza destas coisas. O pequeno gato se tornava maior e queria estar cada vez mais próximo do leão. Mas o leão nunca o permitia.
Foi quando o pequeno gato branco, que já não era não pequeno, começou a enxergar que a estrada Vida possuía outras direções. Ramificações. Atalhos. Ele decidiu caminhar por um destes atalhos. E, longe do brilho ofuscante do leão, ele passou a enxergar ainda mais com seus novos olhos. Foi quando ele viu no céu azul uma águia lá do paraíso. No meio de tantos animais que piravam e berravam, o gato branco pode ouvir ela cantar e piar triste e docemente. Ela logo o percebeu. Desceu das alturas e parecia tão pequena e frágil de perto, como uma mélroa, uma pomba. Parecia vazia. O gato lhe deu parte da energia que o preenchia e ela ficou feliz. Em troca, a águia o levou para conhecer as montanhas. Era engraçado vê-los juntos, tão diferentes e tão parecidos.
O gato estava muito feliz, mal se lembrava do leão. Mas sentia que, por mais que tentasse deixar a águia feliz, ela ainda continuava a piar com certa melancolia. Isso o incomodava.
Certo dia, continuando pelo atalho, o gato branco chegou novamente à estrada Vida principal. O leão, que havia ficado para trás, o viu andando na frente junto com a águia. E eles andavam tão próximos, como o gato e ele nunca andaram. A águia levantou vôo e o gato continuou pela estrada. Então, o leão correu atrás do gato branco. Quando o alcançou sorriu alegremente para ele. Parecia só. O gato também sorriu, mas não tentou se aproximar. Nem o sorriso teve o mesmo impacto que tinha antes. A imagem da terra vista das alturas já era mais forte para o gato branco, assim como a proximidade que ele tinha com a águia. O leão então começou a se aproximar enquanto a águia voava longe, distante demais. A energia voltou a ser preenchida no interior do gato. Ele gostava de estar próximo do leão, apesar de que o grande felino sempre controlava a proximidade. O leão acreditava que era melhor assim e que, de outra forma, poderia machucar o pequeno gato, pisando com suas enormes patas sobre ele. O que ele não sabia é que machucava muito mais o gato branco mantendo esse cuidado. O gato achava o leão confuso. Nunca sabia se ele o queria por perto ou de longe. E tinha medo de irritar o grande felino. Confiava nele, mas tinha medo.
Quando a águia voltava, o gato se afastava do leão. Ela nunca soube dele. O gato nunca falava dele para ela. A águia estava cada dia mais triste. Vazia. O gato a preenchia com toda sua energia, mas não adiantava. Ela voava cada vez mais longe e demorava mais tempo para voltar. O gato branco se sentia sugado. Doava sua energia de bom grado, mas não sentia retorno. A proximidade já não existia mais. Foram ficando longe, distantes demais. O gato percebeu que era melhor assim. Eram tão diferentes. Pertenciam a lugares diferentes. Nada que ele fizesse poderia ajuda-la. Ele também acreditava que não ficaria sozinho, que tinha a companhia do leão. Então, a águia se foi para as montanhas. Eles se despediram e nunca mais se viram.
O leão, que se queixava de estar só agora poderia ter a companhia do pequeno felino sempre. E era tudo o que o gato branco queria. Ele correu para o leão e contou que a águia tinha ido embora para sempre. Mas, o leão não deu muita importância. Estava diferente. Não se aproximava e se esquivava quando o gato branco tentava chegar perto. O gato preferiu acreditar que era por causa da estrada Vida, que estava mais difícil naquele momento. Havia um morro trabalhoso de se escalar naquele trecho. O leão estava sempre ocupado em encontrar uma maneira de continuar subindo. O gato continuava seguindo atrás, respeitando a distancia imposta pelo leão. Chegaram ao fim com sucesso. Era bonito de lá. O ar era leve e feliz. Foi quando o gato parou no meio de tudo aquilo, se sentou e olhou para o leão. Era um felino, como ele. Mas eram muito diferentes. Por mais que o pequeno gato branco crescesse, seria apenas um pequeno gato para o grande leão. E ele se entristeceu. Olhou para a estrada Vida e viu novamente as ramificações, atalhos. Sabia que, mais uma vez, se separariam.
Mas, antes de prosseguir, ele olhou para trás. Há quanto tempo não fazia isso? Não, ele não pensou em voltar. Jamais. Ele viu as montanhas, viu as grandes árvores, viu onde encontrou o leão pela segunda vez. Em segundos, todos os lugares por onde esteve na estrada Vida passaram diante dos seus olhos. E o gato branco sorriu. Sorriu e se sentiu grande como um leão. E sentiu que o seu sorriso era como um sol gigante, capaz de preencher todos os seres vazios com sua energia. Ele se voltou para a estrada, correu atrás do leão, que já ia por um dos caminhos sem se despedir. Olhou dentro dos seus grandes olhos profundos e brilhantes. O gato poderia dizer muitas coisas. Tinha muito o que dizer, na verdade. Mas ele apenas disse “Obrigado por tudo!” e sorriu.
O pequeno gato branco tomou seu caminho na estrada Vida confiante, sem medo de estar só e ansioso pelo que lhe esperava. Todas as estradas têm um fim. Mas aquele era só o começo da sua.
M. M.
Um comentário:
Por que será que o olho do gato é tão diferente do que o olho do leão? ambos felinos, ambos gatos. Mas o Leão tem iris redonda e o Gato em i.
Belo texto.
Postar um comentário