sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Instinto

O lugar de onde eu vim... Olha, eu não lembro muito bem, eu era muito pequeno. Era um lugar grande, tinha muito mato e faltava comida. Além da minha mãe e do meu irmão, havia outros. Poucos. Nunca vi meu pai de verdade. Hoje, o meu pai de criação me contou que todos devem ter morrido pouco depois que ele me tirou de lá. Envenenados, provavelmente.

Eu vivo bem aqui. Sempre tem comida. Excelente comida. E olha que nem escolho muito. Há lugares para se dormir bem. Lugares altos. Lugares escondidos. Nunca tomo chuva ou passo frio. Só não gosto dos remédios. Quando tenho que tomar, o meu pai me dá à força. O gosto deles é horrível.

Não tenho muito o que fazer enquanto meu pai está fora. Durmo muito. Eu tenho um pouco de medo de algumas pessoas da casa. Acho que se irritam quando meu pai não está, e chamo por ele. Eu não saio. Nunca. Tenho muito medo da rua. Das pessoas. Sei que existem pessoas como meu pai, mas existem outras que podem me envenenar também. Tenho muito medo.

Eu gosto de olhar pela janela. É um pouco alto. Sempre gostei de lugares altos. E como é grande lá fora! Eu me perderia facilmente, isso é certo. E os pássaros? Quando eles passam rápido, mal dá pra acompanhar com os meus olhos. E olha que tenho olhos rápidos!

Às vezes tenho vontade de estar lá. Correr pelas ruas. Subir em árvores. Espreitar pelos telhados das casas silenciosamente. Caçar, por pura diversão, pois comida não me falta. E quem sabe encontrar seres iguais a mim, como aqueles que aparecem algumas noites e me percebem na janela. Eles se sentam lá embaixo e ficam me olhando com seus olhos que refletem a luz e brilham como fogo. Por horas.

Eu não sei dizer se sinto medo deles. Acho que eles sentem frio, fome, tomam chuva e caçam por que precisam sobreviver. Mas parecem felizes. Eles correm pelas ruas, sobem em árvores, telhados e nunca tomam aqueles remédios horríveis. Sim, são felizes.

Eu acredito ser feliz também, ao meu modo. Fico triste quando o meu pai demora a voltar. Às vezes ele demora alguns dias. Mas quando ele volta, fico muito feliz. O meu pai me pega em seu colo, afaga minha cabeça. Costuma me apertar, eu não gosto tanto, mas nem ligo muito. Tem dias que brinca de correr e me empurrar no colchão. Eu gosto muito. E quando ele vai dormir, eu também vou. E se não tenho sono, vou assim mesmo. Gosto da companhia, dividir o calor. Acho que ele sente muito frio e eu posso aquecer.

Só tenho a ele. Eu o amo. Claro que sim. Mas nunca disse isso, assim, dessa forma. Ele também não. Tem coisa que não precisa ser dita, não é mesmo? Podemos sentir. É o bastante.

É nesse momento que o mundo de aventuras e liberdade lá de fora fica distante, como um sonho que se esvai pela manhã. E nada mais importa. Nada.



M. M.

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